15 de fev de 2009

Saul Leiter e a sensação das cores


Foto: Saul Leiter

O AutoFoco dá espaço a mais um Colaborador: Camilo Soares, fotógrafo de cinema, professor da UFPE e a partir de agora, co-blogueiro do AutoFoco! O texto abaixo é parte de um ensaio que Camilo escreveu para a revista Continente Multicultural sobre Saul Leiter, fotógrafo conhecido por seu trabalho publicitário e de moda, que, aos 85 anos alcança prestígio no meio artístico internacional.

“Talvez eu não tivesse a personalidade para ser um artista conhecido”. Assim o fotógrafo Saul Leiter ensaia uma justificativa sobre o quase ineditismo de seu trabalho pessoal durante décadas. Acha até engraçado ter respaldo internacional hoje, aos 85 anos, somando duas grandes exposições em Paris somente em 2008, na Fundação Henri Cartier-Bresson, e na galeria Camera Obscura. Leiter, que fez toda a sua carreira na fotografia de moda, não estava acostumado com a bajulação do mundo das artes. Entretanto, seus clichês coloridos capturados entre 1948 e 1963 causam, hoje, turbulências em olhares desavisados e por muito acostumados com o equilíbrio clássico da fotografia em preto-e-branco da época. Os enquadramentos inusitados e a força expressiva de seus tons compensam hoje o esquecimento histórico, elevando o fotógrafo, para alguns críticos, a um lugar entre os grandes mestres dessa expressão.

Não é que a ambição artística faltava para esse norte-americano de Pittsburgh, filho de um rabino célebre, visto que deixou os estudos de teologia, que seguia com brilho, para tentar a carreira de pintor em Nova York. Logo se enturmou com a segunda geração dos expressionistas-abstratos, e sob influência do pintor Richard Poussette-Dart, obteve uma primeira máquina fotográfica Leica, passando a flanar nas ruas da grande metrópole atrás de momentos fugidios.

Começou com o preto-e-branco, influenciado por uma exposição de Cartier-Bresson que lhe revelara que fotografia poderia ser arte, até que decidiu comprar um rolo de película em cores para ver o que dava e gostou do que deu. Gostou muito. Mesmo sendo a fotografia em cores considerada indigna de pretensões artísticas na época, Leiter decidiu mergulhar de cabeça nessa pesquisa estética, em busca da imagem efêmera de uma cidade em mutação, como numa mulher adivinhada nos tantos espelhos arranhados sob um muro de bar. Ela cruza a calçada, evanescente qual passante de Baudelaire, surgida em “Um raio... então a noite! – Fugitiva beleza cujo olhar me fez repentinamente renascer, não mais te verei antes da eternidade?”.

Uma certa melancolia poética desbota sua palheta de tons fortes e densos; cores, no entanto, que transcendem a inexorabilidade de seu espaço, desprendendo-se do tempo no que se deixam, como na linha famosa de Pena Filho, “entrar no acaso e amar o transitório”. Não à-toa busca lascas de sensações apontando sua lente em direção de velhos espelhos, vidraças embaçadas, frestas de portas: “Tenho um grande respeito pela desordem, pelo inacabado”, confessa o próprio fotógrafo para a curadora Agnès Sire, da exposição na Fundação Henri Cartier-Bresson.

Sempre apegado à pintura, que nunca abandonou, Leiter também aplica na fotografia suas influências pictóricas, Pierre Bonnard e Édouard Vuillard como referências mais marcantes. São pintores da escola Nabis, movimento francês do final do século 19, que utilizou cores vivas e puras para se libertar da obrigação imitativa da pintura e criar lógica e simbologia próprias à sua arte. Além do delicado trabalho com as cores primárias, o fotógrafo também bebe da fonte de Bonnard e Vuillard quanto à composição do espaço, influenciada pelas estampas japonesas, com figuras cortadas por enquadramentos, abrindo as portas para o subjetivismo do não visto.

Leiter não hesita em deixar a figura humana fora de seu quadro, quando, por exemplo, o que lhe interessa é o vermelho do guarda-chuva no meio da neve. Trabalha assim o vazio, também caro à estética oriental. Põe com delicadeza um semáforo verde no meio de uma cidade descolorida pela neve. São tais enquadramentos frustrantes que, segundo Pascal Bonitzer, introduzem na imagem um suspense não narrativo. O vazio, o fora de quadro, o achatamento do sujeito favorecem uma situação estritamente espacial de impor uma percepção múltipla de tempo, o que nos afasta de uma leitura puramente factual. Leiter possui também uma visível preferência por enquadramentos verticais, que no formato 35mm obrigam a uma leitura estreita, em profundidade, em detrimento de uma leitura lateral (horizontal) de ordem narrativa.

Leia a matéria na íntegra na edição 98 da Revista Continente Multicultural.

Enviado por Camilo Soares.

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