29 de mar de 2010

Santo Lima na MUDA > uma pista de como a fotografia digital se comporta em novos contextos de visualização.

Antecipadamente, perdoem-me o devaneio.

Mas, indo conferir a abertura da exposição do Coletivo Santo Lima, hoje à noite, no espaço MUDA, me veio a idéia do que, ou quando iremos nos defrontar de fato, com um trabalho que traga para a fotografia a materialidade do digital como um elemento diferenciado.

Explicando melhor, em suma, um trabalho que seja legal, bacana, pelo fato de ser digital. Onde a imagem numérica esteja no processo como um fator diferencial, contribuitivo, do produto em questão.

Assim como a síntese entre Leica, Cartier-Bresson e a mobilidade do disposivo fotográfico revolucionou o fotojornalismo.

Assim como o médio-formato, ao impor uma visualização na altura do umbigo, condiciona o isolamento do mundo, estamos olhando um quadro, uma composição e não diretamente o que vemos, ou queremos registrar.

Assim como o grande-formato, pesado, complicado, detalhista, cheio de ajustes, no momento em que colocamos a placa com o filme, não temos mais o visor. E ganhamos uma visualização plena, direta, diante da paisagem ou objeto. Sem visor, somos nós e a camera que fazemos a imagem, a camêra não está 'entre' quem olha e o que é olhado. Está ao lado. É partícipe.

Me fica a sensação que, na concepção estrita de fotografar, o digital ainda está na fase que copia tudo. Transporta e adapta modos de visualização que já existem e ocorrem antes na história da fotografia. O que é legal, ou bacana pelo fato primeiro de SER digital? Por que uma câmera digital é tão parecida com uma câmera analógica (na forma e no modo de se operar) como, a seu modo, NÃO o é um MP3 player e um equipamento de som com CD?

Pistas?

Ao ver a instalação do Coletivo Santo Lima isso me saltou à cabeça. Qual o lugar onde o fazer imagem digital se situa. Fotos feitas na hora da vernissage sendo justapostas a slide-shows pré organizados. Excesso de retratos, e não mais o retrato, sendo acelelerados em modo ultra-rápido, mixados na hora com um monte de referências visuais e repertórios fotográficos.

Não sei se o experimento dos caras (Beto Figueroa, Ricardo Spencer, Rafa Medeiros, Tom Cabral e Marcelo Lyra) se insere necessariamente em um novo modo de ver foto, ou se está direcionado mais para a a camera como uma multifunção de registro e performance.

Para o bem ou para o mal. Para o bom ou para o Ruim. Muito menos defendo esse experimento como sendo "o caminho".

Estou falando de pistas.

De uma foto que busca no presenteísmo da exibição uma articulação possível que permita agregar o "isto foi" como uma área de conforto da ontologia fotográfica em nome de um "isto sendo"que se realimenta e direciona a foto pro presente quase imediato. A Câmera que registra, é depois, mestre de cerimônias, câmera de vídeo, vínculo entre tempos narrativos.

Não sei sequer se isto é necessariamente só fotografia. Muito menos estou preocupado em definir qualidades a respeito da experiência-foto-instalação-ambiente como vi hoje.

Estou apenas falando de pistas.

As mídias, historicamente se acomodam umas a outras. Se deslocam, adquirem elementos, abandonam outros. A fotografia não estaria passaando por isso? Não creio que, mesmo sendo hegemônica no nível mercadológico, extremamente popular, no nível doméstico, incomparavelmente ágil no circular de imagens, extremamente acessível na aquisição de repertórios e gramáticas visuais, a fotografia digital já tenha achado sua cara. Tudo isso que falei que ela é, é verdade. Mas são resultados de potencializações, de amplificações do que era possível.

Onde está a sua ruptura no ato do fazer-se foto?

Qual a sua cara nesse momento sem que caia na tentação escapista de ser enquadrada em um conceito tão poroso, ineficaz e vintage como "pós-modernidade"?

Ficam as provocações e, de quebra, as pistas.




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