27 de mar de 2010

Entrevista Noah Addis e o Jardim Edite


Foto: Noah Addis.

Nós já postamos aqui no site algumas notas sobre o ensaio "Sempre Jardim Edite", do fotografo norte americano Noah Adidis. Agora, em entrevista exclusiva para o AF de Autofoco, Noah fala sobre o início do seu trabalho, sobre fotografia documental e outros temas.

Sobre o entrevistado (extraido do site www.noahaddis.com):

NOAH ADDIS, formado em Fotografia pela Universidade de Drextel, na Filadélfia, tem trabalhado como fotojornalista profissional e fotógrafo documental há mais de quinze anos. Seu trabalho tem sido publicado em grandes jornais e revistas como o The New York Times, Time, Newsweek, People, E.U. News & World Report, Year's Life in Pictures e muitos outros.

Noah cobriu histórias como o crescimento do cristianismo na África e na guerra no Iraque. Ele já ganhou vários prêmios regionais e nacionais, incluindo o New Jersey Fotógrafo do Ano por três vezes. Em 2001 ele foi o vice-campeão na categoria portifólio da National Press Photographer’s Association Best of Photojournalism.


AF de Autofoco - Quando a fotografia começou a fazer parte da sua vida? Noah Addis – Quando eu era jovem, queria ter uma carreira em ciências ou engenharia. Durante o ensino médio, fiz uma viagem à Madrid e comecei a tirar fotografias de uma maneira diferente do que eu fazia antes – agora, eu estava pensando sobre a composição e a luz. Quando cheguei em casa e revelei os filmes, percebi que a câmera que eu estava usando estava quebrada e nenhum dos filmes eu tinha colocado corretamente. Nenhuma das fotos saíram, mas a experiência tinhas suscitado um interesse pela área em mim. Depois, meus pais me deram uma câmera SLR no meu aniversário e eu decidi que fazer fotografia era o que eu queria fazer na minha vida

AF – No seu site (www.noahaddis.com), nós podemos ver alguns dos seus projetos. Em “Serving the Nation”, há uma pequena descrição sobre o conceito que você usou para elaboração. Você escreveu: “I hope to bring attention to the fast-moving word outside of the Windows which otherwise migth go unnoticed”. Voce pode explicar esse conceito para nós?

NA – Eu comecei esse projeto enquanto viajava entre algumas cidades dos Estados Unidos. Trens, especialmente no nordeste dos Estados Unidos, tendem a percorrer bairros muitos interessantes e diversificados. Eu acho que muitas pessoas que viajam de trens não prestam muita atenção ao que está do lado de fora. Muitos dos trens viajam por áreas que antes eram ocupadas por indústrias, bem como por bairros operários. Agora, que a economia destas áreas tem se afastado da produção industrial, muitas das áreas industriais e antigos bairros residenciais prósperos estão desaparecendo. De certa forma os trens fornecem uma ligação interessante da história econômica dos Estados Unidos.


Foto: Noah Addis.


AF – Em “Wall Strett”, você nos mostra algumas cenas não muito comuns daquele lugar. Que tipo de história você busca nos contar?

NA – O distrito financeiro de Nova York é um lugar fascinante. Assim, muitas decisões são feitas lá que afetam a todos nós. Quando a extensão da crise financeira começou a ficar clara, em setembro de 2007, voltei minha atenção para Wall Street, para algo que aguçasse minha curiosidade.

Nessa época, eu ainda estava com o pessoal do jornal, de modo que este foi um projeto pessoal feito no meu tempo livre. Eu queria observar e fotografar a vida cotidiana daquela área. Eu não estava interessado na “news photo” – os comerciantes sobre o piso da bolsa de valores, por exemplo. Eu queria ter uma noção do lugar, da rotina diária dos trabalhadores daquele local.


Foto: Noah Addis.


AF – Fale um pouco sobre o seu trabalho “Sempre Jardim Edite”. Nós podemos dizer que você trabalha a representação de um novo modelo de êxodo urbano no Brasil?

NA – “Sempre Jardim Edite” é uma pequena parte de um projeto em andamento sobre as pessoas que vivem em comunidades de favelas urbanas em todo o mundo. Eu tenho um grande interesse em estudos urbanos, desenvolvimento e arquitetura. A teoria social tradicional acredita que a urbanização seguiria a industrialização. No entanto, muitas das megacidades no mundo, especialmente as do mundo em desenvolvimento, estão passando por um crescimento em massa da população, ao mesmo tempo em que estão experimentando uma perda de empregos na área industrial, conseqüência da estagnação da economia. Devido a agricultura mecanizada, o agronegócio em escala industrial, a guerra civil e inúmeros outros fatores, muitos cidadãos tendem a procurar oportunidades em outros centros urbanos no mundo. Fotografando os moradores das cidades contemporâneas, bem como o ambiente construído para e pelos moradores, espero adquirir uma maior compreensão das questões com que as cidades estão se deparando. O que acontece nas cidades do mundo - questões de saúde global, migração, desenvolvimento econômico, crises de refugiados e preocupações com a segurança - afetam a todos nós.


Foto: Noah Addis.


AF – Seu trabalho mistura algumas características da fotografia documental com o fotojornalismo. Para você, existe uma barreira entre esses dois conceitos? Como você enxerga essa relação?

NA – Eu não acho que deveria haver uma barreira entre o fotojornalista e o fotógrafo documental. Realmente eles são a mesma coisa, talvez com intenção e um publico um pouco diferente.

Comecei minha carreira trabalhando como fotojornalista em um grande jornal. Saí do trabalho pouco mais de um ano atrás para prosseguir com os meus próprios projetos pessoais e para fazer trabalhos “freelance”. Agora que estou trabalhando principalmente com projetos em longo prazo e com uma tendência mais autoral, acredito que provavelmente eu me encaixe mais na categoria de um artista ou um documentarista

Tento manter a integridade intelectual e a objetividade necessárias para o jornalismo quando eu faço projetos pessoais de longo prazo. A principal diferença é que, agora, estou livre para trabalhar em histórias que não estão nas manchetes e posso ter uma visão mais ampla. Acho que estou realmente tentando fornecer um contexto mais amplo para o meu trabalho.

Na verdade, acredito que aprendi a dar na carreira alguns passos atrás, literal e figurativamente falando. Eu não preciso mais me preocupar com a criação das imagens dramáticas ou aquelas que irão atrair a atenção de um leitor em uma página ocupada. Felizmente, eu também não preciso me preocupar em ilustrar idéias pré-concebidas por um escritor ou um editor. Estou tentando desenvolver um trabalho que é mais sutil e interpretativo.

Entrevista por João Guilherme Peixoto.

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